Dostoiévski foi levado para ser fuzilado aos 28 anos. O que aconteceu depois explica tudo que ele escreveu

Dostoiévski foi levado para ser fuzilado aos 28 anos. O que aconteceu depois explica tudo que ele escreveu

Em dezembro de 1849, um jovem escritor russo foi levado a uma praça em São Petersburgo com outros prisioneiros políticos. Haviam sido condenados à morte por fuzilamento, acusados de fazer parte de um círculo intelectual considerado subversivo pelo czar.

Os homens foram posicionados em frente ao pelotão. Um padre veio ouvir as confissões finais. Uma carroça com caixões foi estacionada nas proximidades.

A ordem para apontar as armas foi dada, e Dostoiévski sussurrou ao amigo ao lado que estavam prestes a encontrar-se com Cristo. De repente, chegou um mensageiro a cavalo com o indulto. Em vez da morte, foram condenados a quatro anos de trabalhos forçados na Sibéria.

Dostoiévski tinha 28 anos. Nenhum dos grandes romances havia sido escrito.

O que quatro anos na Sibéria fazem com um homem

Ele mesmo descreveu os anos de prisão em Escritos da Casa Morta. O frio, a brutalidade, a convivência forçada com assassinos e criminosos comuns. Para um intelectual criado numa família da pequena nobreza russa, aquele mergulho na escória da sociedade foi um choque para o qual nada o havia preparado.

Mas foi também onde ele encontrou o que considerou a essência do povo russo: uma capacidade de sofrimento que ele acreditava ser inseparável de uma profundidade espiritual genuína. Ele saiu da Sibéria diferente. Mais cristão. Mais convicto de que a resposta para as perguntas mais difíceis sobre a existência humana não estava nas ideologias políticas que circulavam na Rússia do século XIX, estava em Cristo.

O livro que ele escreveu depois de tudo isso

Crime e Castigo é o segundo romance de Dostoiévski, escrito após seu exílio de dez anos na Sibéria. O romance se baseia numa visão sobre religião e existencialismo, com foco predominante na ideia de atingir salvação por meio do sofrimento.

A história é simples na superfície: Raskólnikov, um estudante pobre, convence-se de que homens superiores têm o direito de transgredir a lei moral comum em nome de fins maiores. Ele mata uma agiota. E então passa o resto do livro se destruindo por dentro.

Dostoiévski não estava escrevendo ficção especulativa. Estava respondendo, em forma de romance, às ideias que circulavam nos círculos intelectuais russos: o niilismo, o utilitarismo, a ideia de que a moral convencional era um obstáculo ao progresso. Ele havia estado nesses círculos. Havia sido condenado à morte por causa deles.

O que torna o livro impossível de esquecer

Para a professora Elena Vássina, da USP, o castigo chega a Raskólnikov na forma de um processo interno, uma catástrofe espiritual e a necessidade de purificação interior. Dostoiévski ensinava responsabilidade pessoal. Ele não aceitava a justificativa comum de que as pessoas são vítimas do meio: ao colocar a culpa dos próprios fracassos no mundo mal feito, abre-se mão voluntariamente do dom principal: a liberdade.

Há uma personagem chamada Sônia, uma jovem que se tornou prostituta para sustentar a família, que é o coração moral do livro. Ela é quem lê para Raskólnikov a história da ressurreição de Lázaro. Ela é quem o acompanha até a Sibéria quando ele se entrega.

Dostoiévski usa o paralelo com Lázaro para ilustrar como um homem pode, através do perdão e amor de Deus, ser redimido e para dizer que seu romance é um encorajamento para que cada leitor se levante de qualquer túmulo espiritual em que possa ter caído.

Nietzsche, que não acreditava em nada do que Dostoiévski acreditava, o chamou de único psicólogo de quem teve algo genuíno a aprender.

Marcel Oliveira

Marcel Oliveira

Sou movido por uma convicção simples: que a vida muda quando a mente é alimentada com intencionalidade. Sou pai, esposo e um eterno curioso. Falo sobre livros, ideias e fé, não como um especialista distante, mas como alguém que está no caminho junto e quer ser uma boa companhia nas suas leituras e descobertas.