
Em 1926, dois professores de Oxford se encontraram numa reunião de departamento. Não se gostaram muito num primeiro momento.
C.S. Lewis achou Tolkien dogmático demais. Tolkien achou Lewis barulhento demais. Os dois eram anglicano e católico respectivamente, o que naquela Inglaterra dos anos 20 era uma distância cultural considerável. E ainda assim, ao longo de alguns meses de conversas sobre mitologia nórdica, assunto que os dois amavam de modo quase irracional, algo começou.
O que nasceu dali foi talvez a amizade literária mais consequente do século XX.
Pub, fumaça de cachimbo, e os manuscritos lidos em voz alta
Toda terça de manhã, um grupo de escritores e professores se reunia no Eagle and Child — um pub em Oxford que os frequentadores chamavam carinhosamente de "Bird and Baby". Toda quinta à noite, o encontro se repetia nos aposentos de Lewis na Universidade de Magdalen: paredes de madeira escura, fogo aceso, homens com cachimbo, livros em pilhas. Esse grupo ficou conhecido como os Inklings.O que os unia, nas palavras do próprio Lewis, era uma tendência de escrever e o Cristianismo. Não havia regras formais, nem cargos, nem agenda. Warren Lewis, irmão de C.S. Lewis, descreveu assim: não havia regras, eleições nem reuniões formais. O que havia era leitura em voz alta, cada membro trazia capítulos do que estava escrevendo, e os outros respondiam sem cerimônia, com encorajamento genuíno ou crítica direta, dependendo do que o texto merecia.
Entre os romances lidos em voz alta para o grupo estavam O Senhor dos Anéis, de Tolkien, Out of the Silent Planet, de Lewis, e All Hallows' Eve, de Charles Williams. O que hoje são clássicos mundiais nasceu como capítulos lidos para amigos numa sala de Oxford, com cerveja e dissenso.

O longo caminho até terminar O Senhor dos Anéis
Por anos, o que virou O Senhor dos Anéis existia apenas como rascunhos pessoais, um hobby que ele mesmo achava que nunca se tornaria um livro de verdade.
Tolkien escreveu que a dívida impagável que tinha com Lewis não era influência no sentido ordinário, mas encorajamento puro. Por muito tempo Lewis foi seu único leitor. Só com ele Tolkien teve a ideia de que sua obra poderia ser mais do que um hobby particular.
Tolkien chegou a declarar:
Só através do apoio e amizade de Lewis consegui lutar até o fim de O Senhor dos Anéis.
De uma aposta nasceram livros que atravessaram gerações

O lento esfriamento de uma grande amizade
A maioria das grandes criações humanas tem uma amizade no fundo.


