Uma pedra jogada no escuro e uma das maiores descobertas arqueológicas bíblicas da história

Em 1947, uma pedra jogada no escuro revelou os manuscritos bíblicos mais antigos já encontrados. Conheça a história completa.

Uma pedra jogada no escuro e uma das maiores descobertas arqueológicas bíblicas da história
Compartilhar

Entre o fim de 1946 e o início de 1947, um jovem pastor beduíno chamado Muhammed edh-Dhib, conhecido como “o Lobo”, percorria as falésias de calcário que margeiam o Mar Morto procurando um animal perdido.

Segundo a versão mais conhecida, uma pedra lançada no interior de uma das cavernas revelou o som inconfundível de cerâmica se quebrando.

Ele entrou para ver o que havia lá dentro.

O que encontrou mudaria para sempre tudo que os estudiosos acreditavam saber sobre a história do texto bíblico.

O que estava dentro

Dentro da caverna havia jarros contendo rolos de pergaminho, alguns envoltos em linho. Entre eles estava um manuscrito que preservava praticamente todo o livro de Isaías, um comentário sobre o livro de Habacuque e as regras de uma comunidade religiosa até então desconhecida.

Depois de levarem os primeiros achados a um negociante de antiguidades em Belém, os pastores foram enviados de volta à caverna em busca de mais manuscritos. Ao final, reuniram sete rolos, que acabariam seguindo caminhos diferentes. Os pastores ainda não conheciam o verdadeiro valor histórico do que haviam encontrado.

Quatro rolos chegaram às mãos de um arcebispo sírio em Jerusalém. Três foram adquiridos por um arqueólogo da Universidade Hebraica chamado Eleazar Sukenik.

A noite em que tudo mudou

Em 29 de novembro de 1947, Sukenik fez a perigosa travessia de ônibus árabe até Belém para examinar os três rolos. Voltou para casa convicto: eram manuscritos hebraicos genuínos, com mais de dois mil anos.

Naquela mesma noite, a ONU votava pela partilha da Palestina, o passo que abriria caminho para a declaração de independência de Israel, que viria em maio de 1948. Seu filho, Yigael Yadin, mais tarde expressaria o simbolismo que via naquela coincidência:

Não consigo evitar a sensação de que há algo simbólico na descoberta dos rolos e em sua aquisição no momento da criação do Estado de Israel.

A história raramente acontece de forma simples.

O que os rolos revelaram

Antes de Qumran, os principais manuscritos medievais do texto hebraico da Bíblia eram cerca de mil anos posteriores aos rolos recém-descobertos. Já existia uma exceção importante: o pequeno Papiro de Nash, geralmente datado do século II a.C., que preservava trechos dos Dez Mandamentos e do Shemá, mas não um livro bíblico completo.

Os Manuscritos do Mar Morto mudaram a escala das evidências disponíveis, colocando diante dos estudiosos numerosos testemunhos antigos de diversos livros bíblicos, desde fragmentos até manuscritos extensos, incluindo o Grande Rolo de Isaías, que preserva praticamente todo o livro.

O que a comparação revelou é mais complexo e mais interessante do que a simples ideia de que tudo ficou igual. Alguns dos textos encontrados em Qumran são muito próximos da tradição massorética, preservada nos manuscritos medievais. Outros apresentam diferenças e testemunham tradições textuais distintas. Os estudiosos identificaram variações de grafia, gramática, palavras e passagens.

Mas a continuidade central do texto ao longo de séculos é o que impressionou quem se dedicou a estudá-los. Agora era possível examinar a história das Escrituras com muito mais profundidade, compreendendo melhor tanto a consistência quanto as variações presentes em sua transmissão.

Para quem lê a Bíblia, essa é uma descoberta de enorme relevância. Ela não elimina perguntas sobre a história do texto. Oferece evidências materiais extraordinárias para investigá-las.

O anúncio mais improvável da história

Depois de toda a descoberta, guerra, negociação e controvérsia acadêmica, chegou um momento que só pode ser descrito como absurdo.

Em 1º de junho de 1954, um anúncio foi publicado no Wall Street Journal. Em tradução livre, a chamada dizia: “Os Quatro Manuscritos do Mar Morto. Manuscritos bíblicos datando de pelo menos 200 a.C. estão à venda.”

Alguns dos documentos mais antigos da Bíblia já encontrados, anunciados num classificado de jornal como se fossem um lote de móveis usados.

Yigael Yadin, filho do próprio Sukenik e proeminente arqueólogo israelense, providenciou a compra pelos 250 mil dólares pedidos por meio de um intermediário, reunindo os quatro rolos aos três que seu pai havia adquirido anos antes.

Hoje, os manuscritos estão no Santuário do Livro, em Jerusalém, numa estrutura construída especificamente para abrigá-los, com temperatura e umidade controladas.

Tudo começou com um animal perdido, uma pedra jogada no escuro e o som de cerâmica se quebrando no silêncio de uma caverna no deserto.

Fontes

Autoridade de Antiguidades de Israel
Descoberta e Publicação dos Manuscritos
https://www.deadseascrolls.org.il/learn-about-the-scrolls/discovery-and-publication

Locais de Descoberta (Caverna 1 e outras cavernas)
https://www.deadseascrolls.org.il/learn-about-the-scrolls/discovery-sites

Museu de Israel
Os Manuscritos do Mar Morto — Santuário do Livro
https://www.imj.org.il/en/wings/shrine-book/dead-sea-scrolls

National Endowment for the Humanities
Página institucional sobre os Manuscritos — inclui a identificação de edh-Dhib como “Mohammed the Wolf”
https://www.neh.gov/project/dead-sea-scrolls

Artigo da revista Humanities sobre os Manuscritos
https://www.neh.gov/article/dead-sea-scrolls

Yigael Yadin
The Message of the Scrolls (1957) — fonte da citação sobre o simbolismo da coincidência histórica. Não tem página online oficial, mas pode linkar para o registro na Open Library:
https://openlibrary.org/works/OL4973967W/The_message_of_the_scrolls

Marcel Oliveira

Marcel Oliveira

Sou movido por uma convicção simples: que a vida muda quando a mente é alimentada com intencionalidade. Sou pai, esposo e um eterno curioso. Falo sobre livros, ideias e fé, não como um especialista distante, mas como alguém que está no caminho junto e quer ser uma boa companhia nas suas leituras e descobertas.